A Barraca da Carbonária

A Maçonaria Florestal:História, Informação e Debate.

23.12.06

MAIS HISTÓRIA

CARBONÁRIA



“Sociedade secreta de carácter político-religioso, que exerceu a sua principal actividade desde o fim do sec XVIII a meados do sec. XIX, particularmente em Itália e França. Não se sabe ao certo se nasceu em Itália ou em França. Naquele país os seus membros chamavam-se carbonari (carvoeiros) e, em França, fendeurs (lenhadores) e, nas suas comunicações, usavam de expressões próprias daqueles ofícios. Ao lugar das reuniões chamavam barraca; ao seu interior, choça e aos seus arredores bosque. Tratavam-se por bons primos. A sua acção foi sempre de combate à Igreja católica e, no entanto, os seus filiados veneravam S. Teobaldo, conde de Champagne, morto em 1066, a quem consagraram como seu patrono. Tinha muita analogia com a Maçonaria e, como esta, propunha-se realizar os mais nobres e elevados ideais da Humanidade. Tal como os mações, os carbonários reuniam-se em assembleias e banquetes e usavam uma linguagem convencional. A sua acção consistia em limpar o bosque dos lobos, ou seja destruir os tiranos. Dividiam-se em duas classes: aprendizes e mestres, e havia ritos especiais para a iniciação, que era rigorosíssima. A hierarquia carbonária elevava-se das choças ou barracas para as vendas, que eram as orientadoras daquelas e nomeavam delegados ao conselho supremo, denominado alta-venda, à qual presidia um grã-mestre, escolhido pelos referidos delegados, ou deputados. Havia também barracas de mulheres, que se chamavam jardins, tendo elas o nome de jardineiras. Tinham os carbonários insígnias e sinais secretos e o selo da organização era ornado com a deusa da Liberdade, tendo um dragão aos pés e a legenda Aniquilador do despotismo. Foram organizações carbonárias a Sociedade dos Carvoeiros fundada em Paris em 1821, de carácter revolucionário, e a Sociedade dos Caçadores, do Canadá (1837 e 1838), de tendência anti-inglesa, que alcançou enorme número de filiados chegando a ter núcleos filiais em França. Durante a Restauração, em França, a carbonária teve importância enorme, contando 40 000 filiados sob a presidência de La Fayette. A ela se devem as insurreições de Belfort (1-1-1822), de La Rochelle e Saumur, todas juguladas. Depois da luta contra as ordenanças de Julho de 1830, a Carbonária francesa dissolveu-se. Em Espanha e na Alemanha, também a carbonária teve ramificações importantes. Na Itália, a carbonária lutou contra a invasão francesa e em 1820 contava 600.000 filiados, entre os quais havia muitos altos funcionários e eclesiásticos. Bateram-se contra o Estado Pontifício, a Áustria e seus aliados. O futuro Napoleão III pertenceu à choça de Roma. Em 1821, a associação de Mazzini, “Jovem Itália” absorveu a Carbonária. Em Portugal, em seguida à guerra civil // 868 de 1844, em que o partido progressista foi vencido, organizou-se, pela primeira vez, a Carbonária. Foi o general Joaquim Pereira Marinho quem, em Março de 1848, conseguiu obter de França autorização para poder estabelecer entre nós essa sociedade. Delegou os poderes que lhe haviam conferido no padre António de Jesus Maria da Costa, Ganganelli, que, em 29 de Maio do mesmo ano, instalou em Coimbra, numa casa da rua da Ilha, a Carbonária Lusitana. Procedeu-se, nesse mesmo dia, a eleições, ficando o padre Costa cpomo Supremo Conselheiro da Alta-Venda. Em 1 de Junho seguinte, foram eleitas as comissões encarregadas de regularizar os trabalhos da choça-mãe, ou alta-venda, com as choças filiais. Em Outubro, novas eleições se fizeram em Coselhas, sendo eleito Supremo Conselheiro o dr. Francisco Fernandes da Costa. O padre, despeitado, por ter sido o instalador e assim o alijarem, guardou o livro de matrícula e mais documentos, recusando-se obstinadamente a entregá-los, pelo que foi irradiado. Havia então en Coimbra as barracas Igualdade e União e as choças Fraternidade e Liberdade, que se reuniam numas casas do correio velho, na rua das Fangas, e ainda a 16 de Maio, mais tarde denominada Segredo, que estava instalada numa casa perto do Arco do Colégio. Teve a Carbonária Lusitana barracas e choças noutros pontos, como Figueira da Foz, Soure, Anadia, Cantanhede, Pombal, Ílhavo e Braga. Outras localidades se preparavam para organizar os seus núcleos, mas, em 1850, esta Carbonária dissolveu-se, embora só no distrito de Coimbra tivesse mais de quinhentos filiados, quase todos armados, pois uma das condições para ser iniciado era a de possuir ocultamente uma arma e os competentes cartuchos. Em 1853, o pare Costa pretendeu reorganizar a Carbonária em Coimbra, ainda se constituiu uma choça, com o nome de Kossuth, mas esta tentativa não conseguiu ir por diante. Mais tarde, no ano de 1862, também em Coimbra, novamente se constituiu a Carbonária, estando à sua frente Abílio Roque de Sá Barreto, tendo a alta-venda reunido, pela primeira vez, em 15 de Abril. Não logrou mais do que uns poucos meses de existência, apesar de ter choças e barracas em vários pontos, nomeadamente em Cantanhede e Soure. Em 1864, novo esforço se fez para reorganizar a carbonária, sob a presidência de Abílio Roque de Sá Barreto , mas esta tentativa falhou por completo e até 1907 ninguém mais meteu ombros, em Portugal, à constituição dessa sociedade secreta.Artur Augusto Duarte da Luz Almeida foi quem organizou a Carbonária Portuguesa, que nada tinha de comum com a já citada Carbonária Lusitana. Teve como auxiliares preciosos o comissário naval Machado Santos e o eng. António Maria da Silva; a Carbonária Portuguesa teve a suas primeiras reuniões no sótão da casa onde morava Luz de Almeida, na rua de Santo António da Glória, em Lisboa, onde se fizeram muitas iniciações e se deram lições de manejo de armas. Foi Luz de Almeida eu , em meados de 1907, elaborou a sua constituição e regulamentos geral e ultra-secreto, este apenas transmitido verbalmente aos filiados, que tinham o dever de o decorar. Havia quatro graus: Rachador, Cavador, Mestre e Mestre-Sublime; oas Carbonários chamavam-se Bons Primos e tratavam-se por tu, sendo obrigados a possuir uma arma de fogo e um punhal. Grão-Mestre foi Luz de Almeida e havia um corpo superior, intitulado Venda Jovem Portugal, que se compunha de um número limitado de Bons Primos decorados com o grau de Mestre Sublime. Esta venda tinha as atribuições de velar pela observância do ritual, nomear os juízes do Tribunal Secreto e constituir-se em Alto Tribunal, quando fosse necessário; escolher os inspectores e os delegados provinciais e as altas vendas (efectiva e substituta), eleger o grão-mestre e o grão-mestre adjunto. Todas as ordens da alta venda deviam ser cumpridas sem discussão. As secções da Carbonária Portuguesa eram representadas por estrelas de diversas grandezas e o conjunto de todas elas constituía o Grande Firmamento, onde se destacava uma estrela de cinco pontas, encimada pelo globo terrestre. Foram carbonários que fundaram o célebre grémio maçónico Montanha, introduzindo assim a Carbonária no Grande Oriente Lusitano. Paralela à carbonária e agindo sob orientação desta, foi necessário fundar outra associação secreta, A Coruja, a fim de agrupar muitos elementos republicanos que não queriam submeter-se às rigorosas fórmulas carbonárias. À frente dela estava José Maria de Sousa, António José dos Santos, Coelho Bastos e Henrique Cordeiro, os quais, depois de recrutarem numerosos adeptos, a dissolveram, integrando estes na Carbonária, o que era, afinal, o fim que se propunham. Desde o início até à proclamação da República, a Carbonária Portuguesa teve seis altas vendas, sendo a existente em 5 de Outubro de 1910composta por Luz de Almeida, Machado santos, António Maria da Silva, Henrique Cordeiro, António dos Santos Fonseca e Franklim Lamas. A acção desta associação secreta fez-se sentir de Norte a Sul do país, e dela faziam parte militares e civis de todas as categorias, tendo sido ela que organizou a revolução que implantou a República em Portugal. Depois de proclamado o novo regime, ainda se manteve enquanto houve movimentos monarquistas, até que com a luta dos partidos políticos, que deu a divisão do antigo Partido Republicano, ela se dividiu igualmente e se dissolveu, sem voltar a ser possível, apesar de inúmeras tentativas feitas, reconstituí-la.

(in Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Lisboa e Rio de Janeiro, Editorial Enciclopédia, V. 5, pp. 867-868)

16.8.06

A CARBONÁRIA EM PORTUGAL




1. INTRODUÇÃO Abordar este tema é uma tarefa complicada, difícil, resultante da escassez de documentos, fruto natural de uma sociedade secreta. Porém, a sua acção deixou marcas profundas na sociedade portuguesa, se atentarmos sobretudo, que a Implantação da República foi fruto da Carbonária, e como em tudo na vida, a causas seguem-se consequências...
Muita gente confunde Maçonaria com Carbonária, ou pelo menos, associa uma destas sociedades à outra. No entanto esta associação não se aparenta assim tão linear e muito menos a Carbonária funcionou como o braço armado da Maçonaria como se tem escrito e falado.
Embora não fossem carbonários todos os maçons, a Carbonária foi muitas vezes uma associação paralela da Maçonaria.
Introduzida em Portugal entre 1822 e 1823, manifestou a sua dinâmica social e política quando do Ultimato inglês em 1890 e de sobremaneira quando do desaire da revolta republicana de 1891 e posteriormente em 1908 quando no Porto foi abortada outra revolta.
O inicio da sua actividade em Portugal, prende-se, sem dúvida, com antecedentes próximos, com o estado de governação despótica exercida pelo marechal britânico Beresford, que colocou a nação a ferro e fogo durante mais de uma década. É bom recordar, que entre as suas vítimas se encontrou o marechal Gomes Freire de Andrade, Grão Mestre da Maçonaria Portuguesa, enforcado no Forte de S. Julião da Barra, junto com outros companheiros, acusados de conspiração com a sua governação.
Efectivamente, desde 1808, data em que por via das invasões francesas a corte procurou refúgio no Brasil, o País passou a colónia brasileira. Porém, a verdade, é que após a ajuda dos exércitos britânicos para a expulsão das tropas napoleónicas, Portugal passou a ser governado pela Inglaterra.
Para parte do povo, vivia-se em estado de orfandade - os soberanos, "os paizinhos" estavam longe... - para outra enorme fatia da população, a monarquia portuguesa encontrava-se desacreditada.
A Carbonária funcionava como uma organização secreta com objectivos políticos e tinha por defesa fundamental, a liberdade pública e a perfeição humana. Era declaradamente anticlerical e adversária das congregações religiosas, o que não significa que os seus membros fossem ateus. Estes homens, procediam maioritariamente das classes baixas, havia no entanto no seu seio, elementos das classes média e alta. Todos eles recebiam treino militar e defendiam o recurso às armas.
A sua extinção surgirá na sequência das divisões verificadas no interior do Partido Republica Português e do triunfo da revolução do 28 de Maio de 1926 que pôs fim à 1ª República.
2. ORIGENS DA CARBONÁRIA EM PORTUGAL A Carbonária italiana serviu de figurino à Carbonária Portuguesa. Efectivamente foi em Itália que nasceu a Maçonaria Florestal ou Carbonária, onde a primeira foi recolher os seus princípios.
Segundo alguns autores, esta associação secreta remonta ao século XIII, época em que apareceram em Itália os primeiros carbonários, ligando-se à continuação das lutas que se haviam travado na Alemanha entre os Guelfos, partidários do Papa e os Gibelinos, partidários do imperador. Aqueles não queriam a interferência de estrangeiros nos destinos de Itália; estes, defendiam o poder do império germânico. A luta durou até ao século XV. Os Guelfos reuniam no interior das florestas, nas choças dos carvoeiros, daí a designação de carbonários. No entanto, outros autores referem a origem desta sociedade secreta em épocas mais recentes.
A verdade, é que foi em Itália sem dúvida, que a Carbonária ganhou contornos, o rosto de que ouvimos falar, consubstanciada com o aparecimento da "Jovem Itália" de Mazzini, fundada em 1831 em Marselha.
No entanto, apesar dos esforços de Garibaldi, Cavour e Mazzini, a Carbonária não conseguiu proclamar a República, porém, dois enormes trunfos foram alcançados: a unificação da Itália e a abolição do poder temporal do Papa.
Em Portugal, Fernandes Tomás, José Ferreira Borges, Borges Carneiro e Silva Carvalho entre outros, fundaram em 1818 uma sociedade secreta (uma pequena Carbonária) a que chamaram Sinédrio, que preparou e fez eclodir a revolução liberal de 1820. Em 1828, um reduzido número de estudantes da Universidade de Coimbra organizou um núcleo secreto, de cariz carbonária, com o título de "Sociedade dos Divodignos", com a finalidade de combater a monarquia absoluta de D. Miguel.
Denunciados por lentes dessa Universidade, perseguidos pelo rei caceteiro, a maioria acabou tristemente na forca, outros emigrados. Um destes, foi encontrado no Algarve, completamente miserável, transfigurado, exercendo a profissão de caldeireiro ambulante, não se sabendo dele o nome nem o seu fim.
O presidente desta sociedade era um sextanista da faculdade de Direito, que emigrado na Bélgica por lá faleceu. Chamava-se: Francisco Cesário Rodrigues Moacho.
Em 29 de Maio de 1848, fundou-se em Coimbra a Carbonária Lusitana. Foi seu "patrono" António de Jesus Maria da Costa, um padre anti-jesuíta, de nome simbólico Ganganelli. Abrindo as portas e fechando, encerrou-as por longo tempo em 1864.
Por volta de 1850-1851, teve sede em Lisboa uma Carbonária com o nome de "Portuguesa", dividida em secções chamadas choças, ou "lojas-carbonárias". Esta carbonária foi de curta duração.
Pela Segunda metade do século XIX, surge em Portugal a Maçonaria Académica, que se irá transformar em Carbonária. As Lojas Independência, Justiça, Pátria e Futuro passaram a Choças, sendo os seus membros divididos em grupos de vinte. Cada um desses grupos ou choças adoptou um nome diferente. Foram assim criadas vinte choças, presididas por uma Alta Venda provisória.
Em breve, esta Carbonária foi integrada por elementos populares que foram sendo iniciados na antiga rua de S. Roque, 117, último andar, em Lisboa, sede provisória da Carbonária Portuguesa. A primeira Choça popular teve o nome República, seguindo-se a Marselhesa, Companheiros da Independência, Mocidade Operária e Amigos da Verdade entre outras.
As diferentes secções da Carbonária tinham as seguintes denominações: Choças, Barracas, Vendas e Alta Venda.. Os Bons Primos, que pertenciam às Choças, possuíam os graus primeiro e segundo (Rachadores e Carvoeiros) e eram presididos por um carbonário decorado com o terceiro grau; Mestre. Às Barracas e Vendas só pertenciam os Mestres, presidentes dum certo número de Choças ou Barracas.
Na verdade, tanto a Carbonária Lusitana (antiga e moderna) como a Carbonária Portuguesa, foram geradas no seio dos estudantes universitários.
Na Carbonária encontravam-se Primos de todas as classes sociais: médicos, engenheiros, advogados, professores de todos os ramos de ensino, estudantes, oficiais e sargentos das forças armadas, funcionários públicos, proprietários, lavradores, administradores de concelho, actores, lojistas, comerciantes, polícias, operários, etc.. Havia de tudo, de Norte a Sul do País. No Algarve, os núcleos mais importantes encontravam-se em Silves, Faro e Olhão. O seu rosto visível - embora o não fosse aos olhos de profanos - eram os centros republicanos.
Havendo já bastantes Mestres, fundou-se a Venda Jovem Portugal. A Loja maçónica Montanha, fundada por Bons Primos, foi o veículo da Carbonária dentro da Maçonaria. Outras Lojas maçónicas com o mesmo cariz se lhe seguiram.
3. A ORGANIZAÇÃO CARBONÁRIA Os carbonários ou bons primos, tratavam-se por tu e davam-se a conhecer por meio de sinais de ordem, senhas, contra-senhas, apertos de mão e cumprimentos especiais com o chapéu. Usavam distintivos e possuíam armas de fogo para a sua defesa. - Os rachadores e os carvoeiros usavam uma folha de carvalho na lapela. - Os mestres, cintos com as cores do seu grau em aspa, e punhal. - Os mestres sublimes usavam além do cinto, um colar de moiré e com as cores carbonárias do último grau, tendo pendente um pedaço de carvão cortado em aspa. - O símbolo solar com 32 raios, era o distintivo superior da Ordem, sendo unicamente usado nas várias sessões magnas pelo Grão-Mestre. - A estrela de cinco pontas representava o Bom Primo.
4. A ESTRUTURA DA CARBONÁRIA Só o Grão-Mestre Sublime e a Alta Venda conheciam toda a organização sem desta serem conhecidos, o que garantia o secretismo desta organização, reforçado pela rígida hierarquia e pelo ritual iniciático que contemplava o uso de balandraus e de capuzes, caveiras, tíbias, etc..
Desde a sua criação até ao seu fim, a Carbonária Portuguesa teve oito Alta Venda, tendo sido seu Grão-Mestre em todas elas, Luz de Almeida.
De todas a mais importante foi a Sexta, pois foram os seus elementos que participaram decisivamente no 5 de Outubro de 1910, na ausência de Luz de Almeida, então exilado em França.
5. A INICIAÇÃO As iniciações faziam-se nalguns Centros Republicanos - onde, aliás, se encontrava grande parte dos Bons Primos carbonários - mas de preferência em escritórios e casas particulares, quando temporariamente desabitadas, ou ainda, em armazéns, caves e até em cemitérios a altas horas da noite.
Os que presidiam às iniciações vestiam-se de balandrau com orifícios no capuz. O venerável carbonário que presidia era assistido pelos seguintes Bons Primos: primeiro secretário (primo Olmo); o segundo secretário (primo Carvalho); o primeiro vogal (primo Choupo) e o 2º vogal (guarda externo).
Era a este último que incumbia o secretismo das sessões, alertando ao mínimo movimento suspeito nas imediações.
O neófito era vendado à entrada pelo bom primo Choupo, depois do interrogatório e após o juramento, se era aceite, assinava então o seu compromisso de honra, muitas vezes com o próprio sangue, como se segue: "Juro pela minha honra de cidadão livre guardar absoluto segredo dos fins e existência desta sociedade, derramar o meu sangue pela regeneração da Pátria, obedecer aos meus superiores e que os machados dos rachadores de cada canteiro se ergam contra mim se faltar a este solene juramento".
Quanto ao bom primo Carvalho, lia os estatutos, em que referia que: "...os associados deviam obedecer cegamente às ordens que lhes fossem dadas; guardar segredo tão absoluto que nem às próprias famílias podiam revelar tudo quanto se passasse nas assembleias; que deviam ser astuciosos, perseverantes, intrépidos, corajosos, solidários, destemidos e valentes...".
6. CONCLUSÃO A Carbonária foi uma sociedade secreta, política, organizada de modo a poder admitir elementos de todas as classes sociais, desde as mais elevadas às mais baixas. Diferia substancialmente da Maçonaria, esta mais tolerante em política e religião, e de carácter burguês.
Sem dúvida que a Carbonária Lusitana e a Maçonaria divergiam substancialmente. Nem todos os Bons Primos eram maçons. A mais importante Loja maçónica que fazia a ponte para a Carbonária era a Loja Montanha. Aliás, esta Loja era uma irradiação da Carbonária, tendo chegado a estar fora da obediência do Grande Oriente.
Embora tivesse favorecido e patrocinado a Revolução Republicana, a Maçonaria não foi a sua alavanca, mas sim a Carbonária. O baluarte da Revolução encontrava-se implantado na zona ribeirinha de Lisboa, muito embora abarcasse todo o País, num total de mais de 40 000 membros. Com a revolução triunfante, a Carbonária dissolve-se em bandos e clientelas políticas, sobretudo na busca de empregos, desfazendo-se assim, o espírito igualitário e fraterno cimentado por anos de luta.

Emmanuel

24.5.06

JARDINEIROS, EM COIMBRA




Sociedade Secreta dos Jardineiros (1820) – Era também chamada, «Sociedade Keporática» (képoros – jardineiro) e estava estabelecida numas casas na Rua do Cabido, pertencentes a José Guedes Coutinho Garrido. Foram as casas arrendadas, em 1820, por três estudantes: Manoel Gomes da Silva, 3º ano de Medecina, do Porto, e conhecido pelo nome de Chicara (mesma alcunha do pai); António Fortunato Martins da Cruz, 2º ano de Medecina, tb do Porto; Thomaz Aquino Martins da Cruz, irmão do anterior e no 2º ano jurídico (foi mais tarde governador civil de Coimbra, juiz de direito em Estarreja e juiz da relação do Porto). Ora, assustados com os acontecimentos políticos de 1823, decidiram tirar todos os objectos da sociedade, que estavam na sala de reuniões, e lançaram-nos numa cisterna existente no pátio das referidas casas, entregando as chaves ao Padre Cordeiro (vide associação anterior). Acontece que, o proprietário das casas veio para Coimbra, acompanhado com os filhos (para fazerem exame de latim), e descobriu os objectos depositados na cisterna das casas. Participou ou Juiz, o qual com o corregedor e provedor da comarca, procederam ao "exame" dos tais objectos, e para satisfazer a curiosidade dos habitantes mandaram espalhar no pátio da Sé Velha tais descobertas, tendo havido forte afluência do povo. Um dos fundadores da sociedade foi um estudante brasileiro, natural da Bahia, Francisco Gomes Brandão (que parece que mudou o nome no Brasil para Francisco Gé Acayaso de Montesuma. Os acontecimentos foram muito comentados, tendo havido muitas publicações sobre o assunto, alguns com "disparates" à mistura, como os folhetos do Padre João Duarte Beltrão.
Ao que parece, pertencia à sociedade Almeida Garrett, segundo carta publicada na Gazeta de Lisboa de 26 de Junho de 1823. [in, Conimbricense, 1905]

A INICIAÇÃO




"As iniciações faziam-se nalguns Centros Republicanos, mas de preferência em escritórios e casas particulares, quando temporariamente desabitadas, ou ainda, em armazéns, caves e até em cemitérios a altas horas da noite.
Os que presidiam às iniciações vestiam-se de balandrau com orifícios no capuz. O venerável carbonário que presidia era assistido pelos seguintes Bons Primos: primeiro secretário (primo Olmo); o segundo secretário (primo Carvalho); o primeiro vogal (primo Choupo) e o 2º vogal (guarda externo).
Era a este último que incumbia o secretismo das sessões, alertando ao mínimo movimento suspeito nas imediações.
O neófito era vendado à entrada pelo bom primo Choupo, depois do interrogatório e após o juramento, se era aceite, assinava então o seu compromisso de honra, muitas vezes com o próprio sangue, como se segue: "Juro pela minha honra de cidadão livre guardar absoluto segredo dos fins e existência desta sociedade, derramar o meu sangue pela regeneração da Pátria, obedecer aos meus superiores e que os machados dos rachadores de cada canteiro se ergam contra mim se faltar a este solene juramento".
Quanto ao bom primo Carvalho, lia os estatutos, em que referia que: "...os associados deviam obedecer cegamente às ordens que lhes fossem dadas; guardar segredo tão absoluto que nem às próprias famílias podiam revelar tudo quanto se passasse nas assembleias; que deviam ser astuciosos, perseverantes, intrépidos, corajosos, solidários, destemidos e valentes...".
(Pedro M. Pereira)

17.5.06

JURAMENTOS




“Eu prometo sobre o pão e o vinho da hospitalidade não revelar nada sobre os Deveres dos Bons Companheiros Lenhadores, nem tão pouco ao meu pai, sob a pena de ser privado do pão e do vinho da hospitalidade. Consinto, se faltar à minha palavra de honra, ser rachado pelo machado dos Bons Companheiros Lenhadores ou ser devorado pelos animais selvagens da floresta.”
( Ritual da Carbonária Italiana, Arquivo da R:.L:."Concórdia" dos ALAM de Florença )

“Juro e prometo sobre esta Cruz, símbolo da Fraternidade, e perante o G.: M.: do U.:, guardar inviolavelmente todos os segredos que me forem confiados por esta R.: B.:, bem como o que nela vir e ouvir, nunca escrevê-los, traçá-los, gravá-los ou deixar deles vestígios de qualquer maneira que seja sem que se me tenha dado uma licença expressa de o fazer e, neste caso, fá-lo-ei do modo que me for indicado. Juro ódio eterno aos tiranos e prometo amar meus PP.: e socorrê-los segundo minhas faculdades; prometo, além disso, conformar-me com os Estatutos e Regulamentos desta R.: B.: ; prometo, mais, nunca ter trato ou comunicação ilícita com mulher, filha ou irmã de Carb.:, de ser bom pai, bom filho e bom esposo. Consinto, se eu vier a perjurar, que o pescoço me seja cortado, o coração e as entranhas arrancados, o meu corpo queimado e reduzido a cinzas e minhas cinzas lançadas ao vento e minha memória fique em execração entre todos os CC.:. O G.: M.: do U.: me ajude.”
(Ritual da Carbonária Lusitana, instalada em Coimbra, 1848)

“Juro pela minha honra de cidadão livre guardar absoluto segredo dos fins e existência desta sociedade, derramar o meu sangue pela regenaração da Pátria, obedecer aos meus superiores e que os machados dos rachadores de cada canteiro se ergam contra mim se faltar a este solene juramento.”
(Juramento da Carbonária Portuguesa, antes de 1910)

“Comprometo-me, de minha livre e espontânea vontade, pela minha honra de homem de bem, a guardar o mais sagrado e absoluto segredo, a obedecer às Ordens Superiores da Associação, a proteger nos limites do possível os companheiros e a defender com a minha vida a Pátria, A República e a Carbonária.
Que eu seja severamente punido se faltar a este compromisso.”

(Ritual da C.: P.:, autorizado pela V.: Jovem Portugal, traç.: em Jerusalém, no Gr.: Firm.: da Maç.: Fl.: Portuguesa, aos 15 de Dezembro de 1910)

16.5.06

BANDEIRA CARBONÁRIA


O FOGO. O CARVÃO. O CÉU.

15.5.06

CARBONÁRIA




Uma aproximação à Carbonária, para compreender as suas origens, organização, funcionamento e objectivos, supõe um distanciamento necessário. É que há, de certo modo, um “espírito do tempo” e o século XIX, com os primeiros anos do século XX, trazem-nos, ainda, um fulgor romântico. Não é sem um sentimento de ternura que olhamos hoje para os milhares de “Bons Primos” que , em Portugal, na França, na Itália, na Espanha ou na América Latina, lutaram pela causa da Liberdade. Sejamos simples e tentemos olhar para a época com o distanciamento e, ao mesmo tempo, com o rigor necessários.

Chegada a Portugal no século XIX, no centro do calor liberal, a Carbonária mantém a auréola romântica que tocou milhares de “rachadores”, “carvoeiros” e “mestres”, organizados, secretamente, em “canteiros”, “choças”, “barracas” e “vendas”. Dos “jardineiros” de Coimbra, à “Carbonária Lusitana” e à “Carbonária Portuguesa”.

Depois, há o Ultimato inglês, de 1890, e tudo vai começar a mudar rapidamente, num estado monárquico distanciado do Povo.
Mas é a partir de 1896, com um homem a quem a República tanto deve, chamado Artur Luz de Almeida, bibliotecário, e à ‘sua’ Maçonaria Académica, depressa transformada em “Carbonária Portuguesa” , com a sua “Venda Jovem Portugal”, que tudo vai mesmo mudar. A organização funciona. Lisboa, sobretudo, etá desperta.
A ditadura de João Franco vai ser a alavanca da máxima revolta e, a partir de 1907, a Carbonária dobra e passa a ter milhares de “bons primos” armados e secretamente organizados. Mas não são uns homens quaisquer. Foram “iniciados” nas casas e nos lugares mais estranhos, vestiram balandraus e capuzes, enfarruscaram a cara com carvão, saudaram o Grande Arquitecto e o patrono São Teobaldo, juraram lutar contra a ignorância e dar a vida pela Liberdade do Povo. Não é por acaso que a iniciação , na Carbonária Portuguesa, se iniciava com a frase do presidente: “É um escravo dos inimigos do Povo todo aquele que não pertence à Carbonária.”

Deles falaremos: dos milhares de homens esquecidos e dos seus organizadores que, na senda de Mazzini, Garibaldi e Cavour, dos “communards” de Paris ou dos anarquistas de Bakunine, souberam ter a coragem suficiente para porem mais um pauzinho na engrenagem, a favor da ‘Liberdade’: Luz de Almeida, Cândido dos Reis, Machado Santos, José Carlos da Maia, José Afonso Palla, João Chagas, Francisco Grandella, António José de Almeida, Heliodoro Salgado, Aquilino Ribeiro, António Granjo, Sebastião Magalhães Lima e muitos outros.

E fixemos o “compromisso”, no ritual de iniciação:
“Juro pela minha honra de cidadão livre guardar absoluto segredo dos fins e existência desta sociedade, derramar o meu sangue pela regenaração da Pátria, obedecer aos meus superiores e que os machados dos rachadores de cada canteiro se ergam contra mim se faltar a este solene juramento.”
Ou este, logo após a implantação da República:
“Comprometo-me, de minha livre e espontânea vontade, pela minha honra de homem de bem, a guardar o mais sagrado e absoluto segredo, a obedecer às Ordens Superiores da Associação, a proteger nos limites do possível os companheiros e a defender com a minha vida a Pátria, a República e a Carbonária.”

14.5.06




Alta Venda (1848) - O Conimbricense (18 de Julho de 1905) refere que "o General Joaquim Pereira Marinho, tendo recebido do estrangeiro autorização para poder estabelecer a Carbonária em Portugal, delegou poderes, em relação a Coimbra, no sr. Padre António de Jesus Maria da Costa (B. P. Ganganelli), para poder levantar choças em toda a parte onde julgasse conveniente regularizá-las, dirigi-las, uniformizá-las e relacioná-las entre si". Segundo os Estatutos da Carbonária Lusitana, existia três Câmaras: Alta Venda (Vendicta Coinimbricense), Barracas e Choças. O artgº 1º dos Estatutos rezava assim: «A Sociedade Carbonária é uma Ordem philantrophica, que tem por fim manter a verdadeira liberdade do paiz e o socorro mutuo dos seus consócios».
Em Coimbra, a 29 de Maio de 1848, deu-se inicio à Carbonária Lusitana, sendo eleito Sup. Cons. da Alta Venda, o referido Padre António Maria da Costa. A sua primeira reunião foi na Rua da Ilha. Além da Alta Venda, instalaram-se as Barracas: Egualdade e União; e as Choças, 16 de Maio (depois Segredo) e Fraternidade e Liberdade. Alguns dos carbonários iniciados foram, entre muitos: Abílio de Sá Roque (Robespierre), Adelino António das Neves e Mello (Napoleão), dr. António José Rodrigues Vidal (Odorico), dr. António Luiz de Sousa H. Secco (Cicoso), António Marciano de Azevedo (Sidney), Cassiano Tavares Cabral (Nuno Alvares Pereira), dr. Francisco Fernandes da Costa (Timon 2), João Gaspar Coelho (Archimedes), dr. João Lopes de Moraes (Dupont), José António dos Santos Neves Dória (Huffland), José de Gouveia Lucena Almeida Beltrão (Lamartine), dr. Raymundo Venâncio Rodrigues (Washington), etc. Aconteceu que em Outubro de 1848, reuniu-se a Alta Venda, na Quinta de Coselhas do Padre Maria da Costa, para eleições, tendo sido eleito Sup. Cons. o dr. Francisco Fernandes da Costa. Sucede que ficando "despeitado" o Padre Maria da Costa, entendeu guardar o livro da matrícula e todos os documentos relativos à Carbonária, apesar dos esforços feitos para a entrega dos documentos, pelo que foi riscado do quadro da Ordem. Pelo que diz o Conimbricense, chegou a contar a Carbonária à volta de 500 membros, quase todos armados, dado até uma das condições de adesão à Ordem, ser "possuir os carbonários ocultamente uma arma com competente cadastro". [in, Conimbricense, 1905]

Barraca Egualdade (1848) - Tinha por presidente o dr. António Rodrigues Vidal; secretário Joaquim Martins de Carvalho (B. P. Ledru Rollin) e por tesoureiro, o dr. José Gomes Ribeiro. A legenda desta Barraca era: Eripuit coelo fulmen sceptrumque tyrannus. Reuniam-se em diferentes locais e até uma noite se fez a reunião no Jardim Botânico, na casa da aula de Botânica, pegada à Estufa. [ibidem]

Barraca União (1848) - Subordinada à Alta Venda, era presidida por Abílio Roque de Sá Barreto. [ibidem]

JURAMENTO




À Glória do Grande Arquitecto do Universo, eu ... juro e prometo sobre os Estatutos da Odem e sob este ferro que pune os perjuros, guardar escrupulosamente os segredos da Respeitável Carbonária; não escrever, gravar ou pintar coisa alguma, sem haver obtido a permissão da Alta Venda. Juro socorrer os meus Bons Primos, tanto quanto o permitam as minhas possibilidades e de não atentar contra a sua honra ou dos seus familiares. Se eu me transformar em perjuro, que o meu nome seja abominado por todos os Bons Primos Carbonários espalhados pela superfície da Terra. Assim Deus me ajude.
(Ritual da Carbonária dos Antigos Manuscritos Partenopei)

12.5.06

5 de OUTUBRO de 1910




“A revolução do 5 de Outubro teve a enquadrá-la maçons e foi essencialmente executada pela Carbonária –já que não cabe em geral à Maçonaria, como intituição, o executivo de movimentos revolucionários.
Ora a Carbonária apresentava características genuinamente populares. Nela se filiaram dezenas de milhar de pessoas, de todas as classes, desde camponenses e operários até bibliotecários e intelectuais, passando por soldados e marinheiros. Enquanto a Maçonaria era mais elitista, pela dificuldade de comprensão do seu ideal e do seu rito, e pelas provas e exigências morais que prescrevia, a Carbonária servia por assim dizer para todos e a todos acolhia, desde que lhes encontrasse ânimo e crença republicana. É claro que o carbonário do 5 de Outubro – e nele está espelhada a grande massa da população portuguesa de então – era pouco instruído e pouco evoluído politicamente. Seguia com devoção os seus chefes, idolatrava-os, papagueava os seus slogans, dizia e repetia palavras que não entendia. Para ele, como aliás para muito rpublicano já mais instruído, a República era o Messias, era o milagre. Bastaria a sua proclamação para libertar o País de toda a injustiça e de todos os males. Era uma nova religião. Muitos interpretavam, errónea e abusivamente, as promessas feitas pelos dirigentes republicanos durante a fase da propaganda, supondo que poucos meses ou até dias depois de proclamado o novo regime estariam resolvidos todos os problemas económicos, sociais e políticos: os pobres seriam ricos, os empregados, patrões, os subalternos, dirigentes.
Para esses, infelizmnte a grande massa, República foi sinónimo de desilusão. Deles iria sair boa matéria prima para futuras querelas e revoluções intestinas, para aventuras demagógicas do pior estofo, para o derrubar final do regime que haviam ajudado a implantar e m quem tinham perdido a fé.”


(A.H.Oliveira Marques, Ensaios de História da I República Portuguesa, Lisboa, Livros Horizonte, 1988, p.36.)

6.5.06

BENFORMOSO

Foto FM

"Lá está a Bandeira, pintada na cal gasta de uma parede que já ouviu conspirações e mil anseios. É no Centro Republicano Almirante Reis, na Rua do Benformoso, à Mouraria.
Da Avenida Almirante Reis muitos terão ouvido falar. Do Carlos Cândido dos Reis, que lhe deu o nome, talvez menos.Aqui fica uma síntese:

"Oficial da Marinha,reformou-se em 1909, como vice-almirante. Republicano convicto,carbonário e maçon, esteve na primeira linha da preparação do 5 de Outubro de 1910. Esteve na revolta falhada de 28 de Janeiro de 1908 contra a monarquia e, no dia 4 de Outubro de 1910, informado de que a Revolução iria falhar e já não veria um Portugal republicano, suicidou-se."

Da Rua do Benformoso, restam outras memórias, como a da iniciação na Carbonária Portuguesa do "herói da Rotunda", Machado Santos, também carbonário e maçon:
«Voltando no navio a Lisboa, em Junho, o primeiro camarada a quem procuro é Luz de Almeida.(…)
Numa noite, conduz-me à Rua do Benformoso, depois de me obrigar a dar várias voltas, conseguindo perceber que no caminho trocava sinais, quase imperceptíveis, com vários indivíduos estrategicamente postados. Depois de me demorar uma boa meia hora, numa casa de espera, conduz-me, vendado, à sala onde se ia proceder à minha iniciação; ali se consumou o acto, parece que a contento de todos os mascarados.
Terminada a cerimónia, fui evasivamente abraçado por todos os presentes, sendo grande o meu desapontamento por não ficar conhecendo nenhum.»

Luz de Almeida, a que Machado Santos se refere, era o grão-mestre da Carbonária Portuguesa ('Venda Jovem Portugal')e Venerável da loja maçónica Montanha."
(in http://sopadenabos.blogspot.com )

5.5.06

ABERTURA




"Como em quase toda a parte, também em Portugal a Carbonária foi muitas vezes uma associação paralela à Maçonaria (embora nem todos os maçons fossem carbonários). "Sociedade secreta essencialmente política", adversa do clericalismo e das congregações religiosas, tendo por objectivo as conquistas da liberdade e a perfectabilidade humana, impunha aos seus filiados "possuirem ocultamente uma arma com os competentes cartuchos". Contribuía directa e indirectamente para a educação popular e assistência aos desvalidos. "Tinha uma hierarquia própria, em certos aspectos semelhante à maçonaria, tratando os filiados por "primos". Os centros de reunião e aglomerações de associados chamavam-se, por ordem crescente de importância, "choças", "barracas" e "vendas". A Carbonária Portuguesa, à qual pertenceram pessoas da mais elevada categoria social, parece ter sido estabelecida em 1822 (ou 1823) "por oficiais italianos que procuravam, por meio de sociedades secretas, revolucionar toda a Europa Meridional". Até 1864 a sua intervenção fez-se sentir em muitos momentos críticos da vida nacional, pois todos os partidários políticos possuíam a sua carbonária. Depois de longo marasmo, desaparecem completamente. A indignação nacional suscitada pelo afrontoso ultimato da Inglaterra (1890) e as desastrosas consequências da revolta de 31 de Janeiro de 1891, com o seu cortejo de prisões, deportações e perseguições de toda a espécie, arrastaram a mocidade académica para as sociedades secretas. Mas foi em 1896 que surgiu a última Carbonária portuguesa, sendo completamente diferente das anteriores : diferente organização, ritual e até processos de combater. Foi seu fundador o grão-mestre Artur Duarte Luz de Almeida. A sua influência exerceu-se de maneira intensiva em quase todos os acontecimentos de carácter político e social ocorridos no País, nomeadamente naqueles que tinham em vista defender as liberdades públicas ameaçadas e combater o congreganismo e os abusos do clero. Tendo participado grandemente nos preparativos do movimento revolucionário de 28 de Janeiro de 1908, que abortou, a sua acção tornou-se depois decisiva para a queda da Mornaquia, mais acentuadamente a partir de 14 de Junho de 1910, quando, a propósito de apressar a revolução, em perigo pelo número crescente de civis presos e militares transferidos, a Maçonaria nomeou uma comissão de resistência encarregada de coadjuvar a implantação da República por uma colaboração mais activa com a Carbonária. A fragmentação do Partido Republicano, sobrevinda ao advento do novo regime político nacional, tornou inevitável a extinção da Carbonária portuguesa, tendo depois, até 1926, resultado infrutíferas todas as tentativas feitas para o seu ressurgimento."
(Dicionário de História de Portugal, 4 volumes, SERRÃO, Joel (ed.lit.), 1ªedição, Lisboa, Iniciativas Editoriais, volume I, 1963-1971, pp.481-2)