A Barraca da Carbonária

A Maçonaria Florestal:História, Informação e Debate.

24.5.06

A INICIAÇÃO




"As iniciações faziam-se nalguns Centros Republicanos, mas de preferência em escritórios e casas particulares, quando temporariamente desabitadas, ou ainda, em armazéns, caves e até em cemitérios a altas horas da noite.
Os que presidiam às iniciações vestiam-se de balandrau com orifícios no capuz. O venerável carbonário que presidia era assistido pelos seguintes Bons Primos: primeiro secretário (primo Olmo); o segundo secretário (primo Carvalho); o primeiro vogal (primo Choupo) e o 2º vogal (guarda externo).
Era a este último que incumbia o secretismo das sessões, alertando ao mínimo movimento suspeito nas imediações.
O neófito era vendado à entrada pelo bom primo Choupo, depois do interrogatório e após o juramento, se era aceite, assinava então o seu compromisso de honra, muitas vezes com o próprio sangue, como se segue: "Juro pela minha honra de cidadão livre guardar absoluto segredo dos fins e existência desta sociedade, derramar o meu sangue pela regeneração da Pátria, obedecer aos meus superiores e que os machados dos rachadores de cada canteiro se ergam contra mim se faltar a este solene juramento".
Quanto ao bom primo Carvalho, lia os estatutos, em que referia que: "...os associados deviam obedecer cegamente às ordens que lhes fossem dadas; guardar segredo tão absoluto que nem às próprias famílias podiam revelar tudo quanto se passasse nas assembleias; que deviam ser astuciosos, perseverantes, intrépidos, corajosos, solidários, destemidos e valentes...".
(Pedro M. Pereira)

2 Comments:

At 2:07 da manhã, Anonymous Anónimo said...

A Carbonária e a República



Sendo absolutamente sintético, começo para terminar – “Machado dos Santos sustentou com plena autoridade, a propósito da proclamação da República Portuguesa, que a Maçonaria tinha sido a verdadeira mãe das revoluções, porque os principais elementos do Carbonarismo elementos estavam filiados na Maçonaria) não teria havido República. Teria podido terminar aqui e já, mas entendo que o tema merece um pouco de desenvolvimento.

estavam nela filiados”. Resumindo-se – sem a Carbonária (cujos “Carvão – no primeiro grau do Rito E´mulação, simbolisa a brasa. Nada é mais abrasador, ardente, que o carvão quando está devidamente aceso, pois nenhum metal lhe pode resistir”.

“Carbonária – Sociedade secreta oriunda da Maçonaria mas constituindo, depois, uma associação autónoma, com a sua vida, métodos e objectivos próprios. Força de choque, disposta à intervenção no mundo profano, a Carbonária copiou da Maçonaria grande parte da estrutura interna, fazendo corresponder à terminologia maçónica ligada à construção uma nova terminologia, ligada ao trabalho na floresta.

A Carbonária, também chamada Maçonaria da Madeira e Maçonaria Florestal, em paralelo com a Maçonaria da Pedra, é o ramo desta que, em Portugal, desencadeou a implantação da República e garantiu a sua integridade nos primeiros anos.
Citemos Joel Serrão (Dicionário de História de Portugal)- “ Como em quase toda a parte, também em Portugal a Carbonária foi muitas vezes uma associação paralela à Maçonaria (embora nem todos os maçons fossem carbonários). Sociedade secreta essencialmente política, adversa do clericalismo e das congregações religiosas, tendo por objectivo as conquista da liberdade e da perfectabilidade humana, impunha aos seus filiados “possuirem ocultamente uma arma com os competentes cartuchos”. Contribuia directa e indirectamente para a educação popular e assistência aos desvalios. Tinha uma hierarquia própria, em certos aspectos semelhantes à maçonaria, tratando os filiados por “primos”. Os centros de reunião e aglomerações de associações chamavam-se, por ordem crescente de importância, “choças”, “barracas” e “vendas”.

A Carbonária (moderna) nasceu em Itália nos começos do Século XIX, tendo sido desde logo condenada pela Igreja, tendo-se introduzido em Portugal pelos menos em 1822. No entanto, Fernando Tomás, José Ferreira Borges, Borges Carneiro e Silva Carvalho, entre outros, fundaram em 1818 uma sociedade secreta (uma pequena Carbonária) a que chamaram Sinédrio, que preparou e fez eclodir a revolução liberal de 1820. Em 1828, um reduzido número de estudantes da Universidade de Coimbra organizou um nucleo secreto, de cariz carbonária, com o título de “Sociedade dos Divodignos”, com a finalidade de combater a monarquia absoluta de D. Miguel.

Em 1848, a 29 de Maio, fundou-se em Coimbra a Carbonária Lusitana, tendo o General Joaquim Pereira Marinho, alto dirigente (já em 1842) do Carbonarismo em Portugal, remetido os seus poderes ao abade António de Jesus Maria da Costa (“bom primo Ganganelli). Essa autorização foi assim concebida:

“À G:. do Gr:. M:. do V:. E de S:. T:. ( São Teobaldo – patrono dos carvoeiros e dos lenhadores) – Em virtude das nossas instituições sagradas, sob os auspícios de S:. T:., nós investimos o N:. B:. P:. O M:. Ganganelli com o grau de G:. M:. da Muito R:. O:., para que ele possa erguer e instalar “Choças” por toda a parte onde ele julgar conveniente; regularizá-las, dirigi-las e relacioná-las entre elas. Dada aos 2 sóis da 1ª:. E:. de 1848 – Becker G:. M:.”

Em Outubro do mesmo ano de 1848, reuniram-se os membros que constituiram a “Alta Venda” e o Dr. Francisco Fernandes Costa foi eleito Sup:. Cons:. Havia em Coimbra, além das “barracas” Igualdade e União, as “barracas” 16 de Maio , Fraternidade e Liberdade. Tinham-se instalado “barracas” na Figueira, Soure, Anadia e “choças” em Cantanhede, Pombal, Ilhavo e Braga. Este Carbonarismo teve um tão grande desenvolvimento na cidade de Coimbra e em todos o seu distrito que se chegaram a contar quinhentos membros, na maior parte armados, sendo uma das condições às quais os Carbonários eram obrigados a de possuir uma arma de fogo com os seus cartuchos. O abade António Costa fez funcionar em Coimbra uma “choça” com o nome de “Kossuth”. Em 1862 o Partido Regenerador organizou novamente a Carbonarismo em Coimbra, sendo Sup:. Com:. Abílio Roque de Sá Barreto, mas a sua acção adormeceu em 1864.

Joaquim Martins de Carvalho, de Coimbra, foi ele próprio presidente da “choça” Segredo e 1º Secr:. a “barraca” Igualdade, sendo também maçon (in Hist. da Franco – Maçonaria em Portugal, de Borges Grainha).

Na segunda metade do Século XIX surge em Portugal a Maçonaria Académica, que se irá transformar em Carbonária. As Lojas Independência, Justiça, Pátria e Futuro passaram a “Choças”. Em breve, esta Carbonária foi integrada por elementos populares que foram sendo iniciados na antiga Rua de S. Roque, 117, último andar, em Lisboa, sede provisória da Carbonária Portuguesa. A primeira “Choça” popular teve o nome República, seguindo-se a Marselhesa, Companheiros de Independência, Mocidade Operária e Amigos da Verdade, entre outras.

Regressando a Coimbra, e aos idos de 1840, verificamos a existência da Loja Maçónica Philadelphia, instalada na antiga Rua de Coruche, hoje Rua Visconde da Luz, em edifício da Misericórdia, sendo quadros da Loja O Ven:. M:. Dr. Agostinho de Moraes Pinto de Almeida (Ir:. Sócrates), António José Duarte Nazareth (Ir:. Camilo Desmoulins), Dr. António Luiz de Sousa Henriques Seco (Ir:. Viriato), António Augusto Teixeira de Vasconcelhos (Ir:. O`Connell), sendo tesoureiro o Abade António de Jesus Maria da Costa (Ir:. Sieyés), já referido como iniciador do Carbonarismo em Coimbra, Francisco Henriques de Sousa Seco (Ir:. Giraldo), José Maria Dias Videira, Manoel Joaquim de Quintella Emanz, Dr. Joaquim Augusto Simões de Carvalho ( Ir:. Danton), entre outros.

Em 29 de Maio de 1848 deu-se início à Carbonária Lusitana, em Coimbra, sendo eleito Sup:. Cons:. da Alta Venda o Abade António de Jesus Maria da Costa, tendo sido a sua primeira reunião na Rua da Ilha. Igualmente foram instaladas as “Barracas” Egualdade e União e as “Choças” 16 de Maio (depois Segredo) Fraternidade e Liberdade. “ “A Barraca” Egualdade tinha como presidente o dr. António Rodrigues Vidal, como secretário Joaquim Martins de Carvalho (B:. P:: Ledru Rollin) e por tesoureito o dr. José Gomes Ribeiro – reuniam-se em diferentes locais e até uma noite se fez a reunião no Jardim Botânico, na casa da aula de Botânica, pegada à Estufa.

Vamos fazer agora referência á organização, graus e simbolismos da Carbonária, socorrendo-nos de António Ventura, in A Carbonária em Portugal – 1897 – 1910 – Havia os Canteiros, as Choças, as Barracas, as Vendas e a Alta Venda. Cada Canteiro tinha cinco membros, os Rachadores; o chefe era Mestre de Choça, que se formava de quatro Canteiros; cinco Choças constituíram uma Barraca e cinco destes núcleos uma Venda. Os Chefes das Choças eram Mestres da Barraca, o desta Mestre da Venda. Os graus eram também singulares: Rachador, Aspirante, Mestre e Mestre Sublime. Todos os filiados se chamavam primos e tratavam-se por tu nas sessões, não se conhecendo entre si mais do que cinco homens, o que tornava difícil a descoberta dos chefes, os quais, todavia, conheciam os seus homens... nas pequenas terras de província, aldeias e lugares, onde se torna impossível constituir núcleos, são iniciados um ou dois indivíduos, que se chamam Vedetas.

A Alta Venda é o governo de Carbonária, sendo de cinco o número de Mestres que a compõem e que são eleitos pela Venda Jovem Portugal.

A Venda Jovem Portugal é uma secção tradicional onde se concentrou durante anos a acção secreta e se manteve o prestigio e o bom nome da Carbonária Portuguesa. É perfeitamente invisível, e os próprios membros dela não conhecem os Bons Primos que a constituem, tem poderes para eleger e exonerar a Alta-Venda e, até, para depôr o Grão-Mestre, que é o presidente honorário dessa Venda Superior e o único dos seus membros que comunica com a Alta Venda, assistindo a todas as suas sessões.

Todos os membros da Venda Jovem Portugal possuem o grau de Mestres Sublimes, o mais elevado da Carbonária. Este grau só é conferido por distinção, mas nem todos os que o possuem fazem parte da Venda Jovem Portugal. Além do elemento civil, eram iniciados na Associação, oficiais e sargentos; soldados, cabos e marinheiros eram iniciados de uma maneira especial, na ramificação militar da Carbonária.

Luz de Almeida (o fundador da Carbonária moderna – 1896) salientava o carácter interclassista da Carbonária, dela fazendo parte “indivíduos de todas as classes sociais, desde as mais ínfimas às mais elevadas”, questão que não deixou de sublinhar, anos depois, na História do Regime Republicano em Portugal: “Na Carbonária encontravam-se Primos de todas as classes sociais: médicos, engenheiros, advogados, professores de todos os ramos de ensino, estudantes, oficiais superiores do Exército e da Armada, sargentos, alguns administradores do concelho, funcionários públicos de todas as categorias e de todos os ministérios, proprietários, lavradores, comerciantes, lojistas, empregados no comércio, actores, operários, cocheiros, condutores e guarda-freios dos eléctricos, empregados dos caminhos de ferro, alguns agentes e guardas da polícia, etc. Havia de tudo na Carbonária”.

O simbolismo da Carbonária era simples; “ A estrela de cinco pontas, que encima o globo terrestre, representa a figura máscula dum Bom Primo, de pé, com as pernas afastadas, os braços abertos e a cabeça erguida, como que a dizer; Pronto sempre para a luta contra todas as tiranias! O termo choça é adoptado em obediência à tradição. Os primitivos carbonários italianos reuniam-se nas choças dos carvoeiros, disseminadas pelas florestas, e daí vem chamar-se também Maçonaria florestal à Carbonária. Os três pontinhos, dispostos em forma triangular com o vértice na parte inferior; as Barracas; as Vendas; o cepo; a lenha; as raízes; o ramo florestal; a corda nodosa; o carvão; a coroa de espinhos; o machado; o punhal; a cadeira de ferro; as estrelas; as constelações; o firmamento; o sol; etc – têm igualmente significação emblemática”. Os carbonários davam-se a conhecer por meio de sinais de ordem, senhas, contra-senhas, apertos de mão e cumprimentos especiais com o chapéu. Usavam distintivos e possuíam armas de fogo, para a sua defesa (era obrigatória tal posse para fazer parte da Carbonária) – os rachadores e os carvoeiros usavam uma folha de carvalho na lapela – os mestres, cintos com as cores do seu grau em aspa e punhal – os mestres sublimes usavam, além do cinto, um colar de moiré com as cores carbonárias do último grau tendo pendente um pedaço de carvão cortado em aspa – o símbolo solar com 32 raios era o distintivo superior da Ordem, sendo unicamente usado nas várias sessões magnas pelo Grão-Mestre. A estrela de estrela de pontas, repita-se, representava o Bom Primo.

As iniciações faziam-se nalguns Centros Republicanos – onde, aliás, se encontrava grande parte dos Bons Primos carbonários – mas de preferência em escritórios e casas particulares quando temporáriamente desabitadas, ou ainda em armazéns, caves e até cemitérios a altas horas da noite.

Os que presidiam às iniciações vestiam-se de balandraus com orifícios no capuz, sendo o venerável carbonário que presidia assistido pelos seguintes Bons Primos: primeiro secretário (primo Olmo), segundo secretário (primo Carvalho), primeiro vogal (primo Choupo) e o 2º vogal (guarda – externo)

A segunda descrição, mais “colorida” e literária, é de Armando Ribeiro:
“O iniciando sobe à mansarda e, na porta da entrada, o apresentante, o padrinho bate três pancadas, soturnas, misteriosas, espaçadas, seguidas de mais três. Pouco custoso cenário servia às iniciações. Na última sala da casa, convertida em tribunal secreto, cerravam-se as portas e janelas. Tomavam lugar a uma mesa os chefes iniciadores, envergando os seus balandraus, os rostos encobertos pelas máscaras negras. Ali estavam presidindo, um Chefe de Barraca, o Primo Presidente; o 1º Secretário, um Chefe de Choça, O Primo do Olmo; o 2º Secretário, igualmente Chefe de Choça, O Primo Carvalho; o 1º Vogal, o primo Choupo e o 2º Vogal, o Primo Vigia. O neófito, conduzido pelo padrinho, recebia à entrada da moradia, a venda, que lhe era colocada nos olhos. Conduzido era pela mão até ao aposento de iniciação, a cuja porta o condutor batia as pancadas simbólicas. O primo presidente, bradava de dentro, com a voz soturna:
- Quem bate à porta da nossa humilde choupana?
- É um primo acompanhado de um pagão.
- Pode entrar o primo e também o pagão. A nossa casa é pobre, mas não faltaremos aos deveres de hospitalidade!
Tinha variante:
- Quem bate à nossa humilde choupana?
- Venho da floresta com um pagão que pretende ser iniciado nos vossos mistérios!
Ou:
- Quem vem a esta hora bater à porta de tão humilde choupana?
- Um primo que vem apresentar um pobre pagão!
- Entre e bem-vindo seja!
Abria-se a porta, lentamente, ao gesto grave do Primo do Choupo e na semi-escuridão cintilavam as Lâminas dos punhais, agitavam-se os machados dos rachadores e erguiam-se canos de revólveres. O iniciando deixava-se cair de olhos vendados sobre uma cadeira até onde o amparavam, enquanto o Primo Vigia saía para, corroborando o seu nome, vigiar pelas autoridades. Fazia o neófito o declinar do seu cadastro pessoal, desde o nome até à religião que professava, esta, com negativa, pois de contrário tinha a expulsão.
Interrogado era depois sobre o seu credo político. Depois a parte trágica: se se sentia com forças para dar o seu sangue pela República, derramá-lo em revolução e se não seria capaz de recuar ante a sentença de morte que lhe fosse incumbida para bem dos fins da sociedade ou para o castigo de um traidor. Conhecendo de antemão as exigências, e quase sempre dispostos a acatá-las, por coesão no mesmo ideal, o carbonário em preparo jurava o respeito das ordens e a sua própria sentença em caso estranho de um desvario pela recusa à obediência ou pelo tentar à traição.
Repetia, pois, trémulo, o juramento ditado pelo Primo Presidente com a voz sepulcral coada pelo pano negro da mascarilha e que o fuzilar dos olhos acompanhava tétrico (segue-se a mesma fórmula de juramento indicada por António Maria da Silva). Depois vinham as perguntas do Primo Presidente ao Primo do Olmo:
- O que se faz aos traidores?
- Matam-se.
- E se ele fugir?
- Procurar-se-á por toda a parte até que o atinja o braço vingador!
Ao gesto presidencial, o Primo do Choupo arrancava a venda ao iniciando, que recuava, vendo apontados ao seu feito indefeso punhais de dois gumes, com cabo de pé-de-cabra chapeado de metal, e as pistolas automáticas e sobre a sua cabeça os machados dos rachadores.
E de novo as vozes soturnas ameaçavam:
- Se faltares ao juramento serás morto sem remissão!
Abaixavam-se as armas e em silêncio lhe era entendido um papel, o cadastro, apontando-se-lhe o local onde devia assinar, documento esse que, desde essa data, se constituía posse de Alta Venda, para o seu registo e para a procura do traidor, caso o fosse.”

Já referimos que a Carbonária como que adormeceu a partir de 1864. No entanto, a indignação nacional suscitada pelo afrontoso ultimato da Inglaterra (1890) e as desastrosas consequências da revolta de 31 de Janeiro de 1891, com o seu cortejo de prisões, deportações e perseguições de toda a espécie, arrastaram a mocidade académica para as sociedades secretas. Mas foi em 1896 que surgiu a última carbonária portuguesa sendo completamente diferente das anteriores – diferente organização, ritual e até processos de combater. Foi seu fundador o Grão Mestre Artur Duarte Luz de Almeida. A sua influência exerceu-se de maneira intensiva em quase todos os acontecimentos de carácter político e social ocorridos no País, nomeadamente naqueles que tinham em vista defender as liberdades públicas ameaçadas e combater o congreganismo e os abusos do Clero. Tendo participado grandemente nos preparativos do movimento revolucionário de 28 de Janeiro de 1908, que abortou, a sua acção tornou-se depois decisiva para a queda da Monarquia, mais acentuadamente a partir de 14 de Junho de 1910, quando, a propósito de apressar a revolução, em perigo pelo número crescente de civis presos e militares transferidos, a Maçonaria nomeou uma comissão de resistência encarregada de coadjuvar a implantação da República por uma colaboração mais activa com a Carbonária.
A Carbonária foi uma sociedade secreta, política, organizada de modo a poder admitir elementos de todas as classes sociais, desde as mais elevadas às mais baixas. Diferia substancialmente da Maçonaria que era mais tolerante em política e religião e de carácter burguês. Sem dúvida que a Carbonária Lusitana e a Maçonaria divergiam substancialmente. Nem todos os Bons Primos eram maçons. A mais importante loja maçónica que fazia a ponte para a Carbonária era a Loja Montanha – aliás, esta loja era uma irradiação da Carbonária, tendo chegado a estar fora da obediência do Grande Oriente.
Embora tivesse favorecido e patrocinado a Revolução Repúblicana, a Maçonaria não foi a sua alavanca, mas sim a Carbonária. O baluarte da Revolução encontrava-se implantado na zona ribeirinha de Lisboa, muito embora abarcasse todo o País, num total de mais de 40.000 membros. O que melhor caracteriza a Carbonária completando o atrás referido, é o facto de operar como exército, quando a solicita alguma grande campanha social ou política como aconteceu com a queda da monarquia – o bom primo é um cavaleiro da modernidade, não usa espada porque já não vive no tempo dela, mas é-lhe exigida a posse de arma de fogo e respectivas munições, sendo o seu ideário igual ao da maçonaria, defendendo o lema celebrizado pela Revolução Francesa –Liberdade, Igualdade e Fraternidade (ou Humanidade em versões carbonárias actuais). Não esqueçamos que a bandeira verde e vermelha da Carbonária, com ligeiras alterações de caracteres, é a que ainda hoje simboliza Portugal, a República Portuguesa.

É um rapaz!... Gritava satisfeito Maurício Paulo Vitória dos Santos.

Maria de Assunção Azevedo Machado Santos acabava de dar à luz. Ali, na velha rua da Inveja, entre a Mouraria e o Campo de Santana, nascia António Maria de Azevedo Machado Santos.

Chama-se Machado Santos, e não “Machado dos Santos”, quer deixar bem claro o progenitor.

Nascido num meio social modesto Machado Santos depressa se dá conta das dificuldades da vida. O pai é um pequeno comerciante de poucas posses e deseja outros horizontes para o filho. Vou para a Marinha!... decide depois de ter liceado nas Portas de Santo Antão.

Alista-se com 16 anos, fazendo carreira na administração naval, não ostentando, portanto, nos galões o óculo que distinguia emblematicamente os chamados “combatentes”. É um militar de secretaria sem formação de combate. Lá o vou encontrar quando, em 1897, também eu me decido pelo alistamento na Armada.

Ao que sei, politicamente Machado Santos começa por militar nas fileiras dos “dissidentes” de José de Alpoim, o grupo de “esquerda” monárquica que progressivamente se ia arredando das hostes da realeza para se aproximar das fileiras republicanas. Pouco dado a meias tintas, depressa procura melhores fileiras para o seu ritmo de marcha, o seu feitio intrépido em favor da causa republicana valera-lhe já, por parte dos camaradas de escola, a alcunha de “Presidente da República do Cartaxo”.

Quando em Agosto de 1907 o capitão-tenente João José Serejo Júnior o procurou, expondo-lhe a necessidade de uma revolta, e mais tarde, Marinha de Campos e Mascarenhas Inglez, o procuraram com o mesmo intuito, já Machado Santos está mais do que conquistado para a revolução republicana

Por causa de um artigo publicado no jornal O Radical, de que era director Marinha de Campos, Machado Santos responde em conselho de guerra, tendo como patrono o Dr. António Macieira. Absolvido, foi mandado para Angola no “Pêro de Alenquer”, e ali se demorou 6 meses.

A sua adesão à causa republicana e a sua rápida e fulgurante carreira de conspirador e carbonário resultaram da oposição à ditadura franquista, iniciada em 1907 e rematada com o regicídio de 1 de Fevereiro de 1908.

Uns dias antes deste acontecimento, projectara-se a eclosão de una revolução, estando esta marcada para 28 de Janeiro de 1908. Nessa altura combinei com Machado Santos algumas acções a desenvolver que, para infelicidade nossa, resultaram num enorme fracasso que leva à prisão de muitos camaradas envolvidos na revolta.

Machado Santos, António Granjo e eu próprio, todos bem implicados na revolta, tínhamos conseguido escapar. Outros, como o chefe de monárquicos dissidentes José de Alpoim, puseram-se em fuga para Espanha.

A conspiração do elevador, como passou a ser conhecido o movimento de 28 de Janeiro de 1908, saldou-se num desaire total para os intuitos dos amotinados.

Nem João Franco tinha sido aprisionado pelos revoltosos, nem Machado Santos consegue ocupar o Palácio Real das Necessidades.

Mas, apesar do desaire, a vida vai correndo de feição para os que almejam o fim da Monarquia.

Entre 1908 e 1909, a Carbonária Portuguesa quase dobra o número dos seus efectivos.

Por esta altura, já a C.P. contava com o contributo de Machado Santos, António Maria da silva, Cândido dos Reis, António Granjo e tantos outros, como eu que, entravam nas fileiras carbonárias dispostos a não dar trégua à monarquia. O grão-mestre era Luz de Almeida.

Foi em Junho de 1908 que Machado Santos é iniciado neste exército secreto de revolução. Da Maçonaria, o irmão Championnet passa-se para a Carbonária disposto a levar as coisas mais a sério.

Contemporâneo de Luz de Almeida nas lides do liceu, Machado Santos contou-me como se processou a sua iniciação:

“ Voltando no navio a Lisboa, em Junho, o primeiro camarada a quem procuro é Luz de Almeida”

(...)

Numa noite, conduz-me à Rua do Benformoso, depois de me obrigar a dar várias voltas, conseguindo perceber que no caminho trocava sinais, quase imperceptíveis, com vários indivíduos estrategicamente postados. Depois de me demorar uma boa meia hora, numa casa de espera, conduz-me, vendado, à sala onde se ia proceder à minha iniciação; ali se consumou o acto, parece que a contento de todos os mascarados.

Terminada a cerimónia, fui efusivamente abraçado por todos os presentes, sendo grande o meu desapontamento por não ficar conhecendo nenhum”.

No dia seguinte, num jardim da cidade, Luz de Almeida põe Machado Santos em contacto com António Maria da Silva e combinam uma reunião para essa noite, numa casa para o lado do Calhariz. Nessa reunião, com a presença de mais seis carbonários, Machado Santos é informado de que fora nomeado para fazer parte da Alta Venda, no seio da qual se encontrava nesse momento.

“Como é de praxe”, contou-me ainda Machado Santos, fizeram-se discursos, e por votação unânime elegeram-me presidente da mesma. Na primeira reunião deste alto corpo dirigente, combinou-se reunirmo-nos todos, o menor número de vezes possível, para não despertar suspeitas e, depois de aprovarmos um plano de acção maduramente estudado, resolveu-se que estivessem em contacto permanente: Luz de Almeida na qualidade de grão-mestre, António Maria da Silva como representante da Venda Jovem Portugal (o nosso corpo legislativo) e Machado Santos como representante da Alta Venda (poder executivo).

Todos os três, pelas 4 horas da tarde, largávamos da Câmara Municipal e, como pacatos burgueses, íamos a caminho do Rossio e Avenida, combinando acção, distribuindo trabalho, tanto quanto as nossas forças podiam comportar.

Na primeira reunião magna de Alta Venda consegui orientar o trabalho da Carbonária e por unanimidade resolveu-se recomendar a todos os associados o seguinte: Que cada um de per si tomasse à sua conta um soldado, de qualquer das armas ou serviços, fazendo-se seu amigo, falando-lhe ao coração, atraindo-o por todas as formas, de maneira que se identificasse por completo com a população de Lisboa.”

Uma vezes em casa de Machado Santos, na Rua de José Estêvão, outras no Jardim de S. Pedro de Alcântara ou onde calhasse fazíamos reuniões abertas a potenciais filiados, as quais não deixavam de produzir os seus frutos. O café A Brasileira, ao Chiado, era tido como o mais frequente pelos carbonários, embora nunca se soubesse quem eles eram.

Nos aquartelamentos militares, os adeptos cresciam a olhos vistos. Luz de Almeida redige um pequeno folheto, intitulado A Cartilha do Cidadão – Diálogo entre o Médico Militar Dr. Ribeiro e o João Magala -, que tem enorme sucesso (três edições) entre os soldados, cabos e sargentos.

Dentro do mesmo objectivo, foram elaboradas outras publicações entre as quais os Barbadões, de Machado Santos, que consta de estrofes para serem cantadas com a música da Marselhesa.

Estes folhetos caem no agrado dos soldados que se vão republicanizando, ao mesmo tempo que servem para angariar fundos destinados a auxiliar as famílias dos carbonários que se encontram encarcerados.

A Policia, porém, não conseguia grandes êxitos na sua acção repressiva. Quando assaltaram a casa de Machado Santos e lhe arrombaram os móveis, esquadrinhando por todos os cantos na busca de documentos, a Policia tinha sido pouco feliz. Os agentes enganaram-se no andar e, em vez de arrombarem a porta de Machado Santos, arrombaram a porta do seu vizinho Ardisson Ferreira.

Apesar de parecer mais fácil passar um camelo pelo buraco de uma agulha do que um policia entrar no reino da Carbonária, houve uma ou outra tentativa de se pretender fazer crer que a Policia estava no bom caminho na luta pelo extermínio total da C.P.

Foi com essa intenção que se procurou comprometer a Carbonária, e principalmente Luz de Almeida, num homicídio que deu muito que falar em 1909 e que ficou conhecido como o «crime de Cascais». António Maria da Silva garante que a Carbonária nada teve a ver com o caso, e muito menos Luz de Almeida, que desconhecia totalmente o assunto. Contudo este é obrigado a abandonar rapidamente o País, dado que a sua vida estava em grande perigo se continuasse em Portugal.

Luz de Almeida morava perto de S. Vicente. Poucas horas depois de ter abandonado a casa, a Policia assaltava-lhe a residência, mas a essa hora já o grão-mestre vai a caminho da fronteira Espanhola, atravessando o distrito de Castelo Branco.

«Partiu imensamente pesaroso», recorda António Maria da Silva. «Foi o maior desgosto da sua vida o não assistir à última etapa da sua acção revolucionária.»

Antes de partir, entregou a António Maria da Silva um documento em que o nomeava apto a desempenhar as funções de grão-mestre da Carbonária Portuguesa. A alta venda, que até aqui era formada por Luz de Almeida, António Maria da Silva e Machado Santos passava agora a contar apenas com os dois últimos. Estava-se em vésperas da revolução que iria trazer a República para Portugal.

Pouco faltava para a uma da manhã do dia 4. No Centro Republicano de Santa Isabel, situado nas proximidades do quartel de Infantaria 16, em Campo de Ourique e onde combinara encontro com o grupo carbonário chefiado pelo civil Meireles, Machado Santos sai para cumprir a missão que lhe fora confiada. Apenas dispõe de 14 armas. Mesmo assim não hesitam, nem sequer esperam o quarto de hora que ainda falta para a hora combinada. Tomam Infantaria 16 onde os sargentos tinham sido já conquistados na totalidade por Machado Santos.

Não muito longe dali, em Artilharia 1, o Capitão Afonso Pala procura cumprir a parte que lhe coubera nesta jornada histórica. É ele a quem cabe dar ordem de fogo aos canhões que vão anunciar o início da revolução. Este está marcado para uma da manhã.

Se em Infantaria 16 os carbonários não esperam pela hora, em Artilharia 1 ainda não era meia-noite e meia hora e já esses revolucionários civis estavam dentro de quartel.

Porém, a tarefa de Afonso Pala encontra dificuldades com que não contava. A antecipação do ataque ao quartel de Campo de Ourique fizera accionar o alarme geral por parte do Comando Militar da Divisão.

Entretanto, chega a informação do suicídio do Almirante Cândido dos Reis, carbonário e chefe militar da sublevação.

Seriam cerca de 7 horas da manhã do dia 4 quando a noticia da morte do Almirante Cândido dos Reis chegou à Rotunda. O velho militar republicano e chefe carbonário aparecera morto, para os lados de Arroios. Suicidara-se ao julgar que a Revolução voltara a falhar.

No acampamento revolucionário a noticia causa grande abalo. Os oficiais presentes decidem reunir em conselho. Ao todo não chegam a ser uma dúzia. Na cocheira do palacete do conde de Saborosa reúnem duas vezes para avaliar a situação. Concluem que não há nada a fazer e votam por abandonar o local. Há apenas um voto contra: Machado Santos.

Vestem-se à civil e partem cada para seu lado. Um é teimoso e fica: Machado Santos.

Os que partem alegam que o plano geral tinha falhado e que o Governo podia dispor de forças mais que suficientes para esmagar a concentração da Rotunda. Os 4470 soldados e os 3371 policias controlados pelo estado-maior monárquico chegavam e sobravam para dar cabo das quatro centenas de carbonários civis e militares que estavam no Parque. A Marinha tardava em dar sinal de si. Os dirigentes políticos do Directório tinham faltado nos locais combinados.

Agora sem oficiais, Machado Santos manda tocar a sargentos. Respondem nove. Estão para o que der e vier. São todos Carbonários. Vão ficar na História: serão os comandantes dos menos de 200 militares que restam depois da saída dos oficiais. Alguns jovens cadetes da Escola de Guerra estão lá também. O reduto revolucionário dispõe de oito peças para sustentar a sua defesa pesada. As barricadas são aquilo que se pode arranjar: toscas, improvisadas, incapazes de resistir a um ataque a sério das forças monárquicas.

Ao meio-dia e meia hora começam a chover as primeiras granadas que anunciam a chegada de Paiva Couceiro à frente das baterias de Queluz. A pontaria não é de aprendiz de artilheiro. Caem em cheio sobre a primeira linha de fogo. O duelo de peças é feroz e intensa a fuzilaria que envolve por completo a Rotunda. No meio do combate, Machado Santos olha para lado e vê, ainda vestido à paisana, um dos oficiais que tinha abandonado o acampamento revolucionário. Era o alferes Camacho Brandão, que regressava para se pôr ao lado dos que àquela hora já morriam pela República. De volta à Rotunda, é-lhe confiado comando das peças que vão conseguir suster o ataque de Paiva Couceiro. Durante toda a luta, dirigiu o tiro de artilharia com um tal convencimento que pôs as tropas monárquicas em completo desnorteio. Comandava o fogo das peças com «tanta serenidade e com um movimento de braços tão compassados como se estivesse dirigindo a orquestra de São Carlos!»

Por volta das 4 da tarde, as baterias de Queluz entendem que o melhor é voltarem para as frescas bandas da Serra de Sintra e com este ânimo põem-se a caminho da respectiva unidade.

Ao romper da alvorada de dia 5 já a República podia ser dada como certa em Portugal. Finalmente a Marinha estava onde era ansiosamente esperada pelos resistentes do Parque.

Os «doidos» da Rotunda tinham mesmo conseguido pôr fim a oito séculos de Monarquia. A teimosia do seu chefe fizera-se História.

Às oito e trinta da manhã do dia 5, Machado Santos desce pela Avenida a caminho do quartel-general monárquico instalado no Palácio do Almada, no Largo de S. Domingos. Vai acontecer o último acto do regime real.

“O herói levava a farda desabotoada, poeirenta, barba de três dias e só uma dragona.” No meio de uma multidão, que o arranca de cima do cavalo e o leva ao colo até à entrada do Palácio, Machado Santos vem acompanhado de uma guarda de honra de soldados, marujos e civis, “num desalinho impressionante, mas empunhando as carabinas com aquela decisão e desenvoltura de quem iria vender a vida pelo preço de um por dez.”- Diz quem viveu esse momento ao seu lado.

“Aos que ficaram na Rotunda tremeu-lhes a passarinha durante aquela meia hora de ausência do Chefe, até a população surgida de toda a parte coalhar com um mar de gente na Avenida da Liberdade de lés- a lés.”- Recorda o herói

Seriam para ai umas três da tarde, quando Machado Santos volta a Rotunda: - “e então que caras eu lá vi!”

“Todos me tratavam democraticamente por tu, mesmo pessoas que eu nunca vira; todos desejavam tornar-se vistos por mim para mais tarde eu poder certificar que haviam estado na Rotunda! Mas os valentes, os heróis, esses quedaram-se muito sossegados à sombra das árvores como que envergonhados da vitória alcançada e que só ao seu heroísmo era devida!”

Mas se a Revolução estava ganha e a Republica triunfante, começava todavia o drama republicano, a longa e laboriosa tragédia do regime que havia de ser decapitado dezasseis anos depois daquela madrugada esplêndida. Antes de mais, o governo cuja composição foi anunciada nas varandas da Câmara Municipal, não correspondia aquele que Machado Santos e outros desejavam.

O Governo que acompanha a proclamação solene da Republica, do alto das varandas da Câmara Municipal de Lisboa, põe logo indisposto o comandante revolucionário. Estava quase todo trocado. Ainda durante a manhã do dia 5, Machado Santos volta para junto dos seus carbonários na Rotunda, e, não fora a feliz ideia de Brito Camacho de promover a ida do novo Governo ao acampamento do alto do Parque Eduardo VII, talvez as comemorações da Revolução republicana não fossem hoje exactamente no dia 5 desse mês.

As suas primeiras palavras, ainda na Rotunda de 5 de Outubro de 1910: “Já não há inimigos! Hoje todos os portugueses, trocando abraços fraternais, vão colaborar na obra de regeneração da Pátria! Já não há inimigos! Há só irmãos!” São palavras que não deixam adivinhar o destino trágico de onze anos mais tarde mas serão as primeiras e as últimas pronunciadas neste tom de crença.

No dia 1 de Dezembro, O Intransigente, jornal fundado por Machado Santos, dava a estampa o artigo “Revolucionários para arranjarem emprego”, onde me recordo de ler o seguinte:

“Muita gente imagina que isto da Republica é empregar toda a gente de afogadilho”.

Machado Santos, entretanto, ainda com a mochila da Rotunda por desarmar, ia assistindo a este rosário de conversões e a todo o desenrolar do que estava a acontecer a sua jovem República.

Na recepção na tarde de dia 8 de Outubro no Ministério da Guerra, no Terreiro do Paço, Teófilo Braga, então presidente do Governo Provisório, enaltece o principal obreiro do Cinco de Outubro e, levando-o à varanda do Ministério, apresenta-o ao povo:

- Eis a alma da Revolução e da vitória. Foi Machado Santos quem, nos momentos de maior perigo, incutia a todos que o rodeavam a coragem necessária para continuar a luta que foi tão gloriosa.

A apresentação ao povo tinha sido precedida de umas das estiradas e confusas digressões da enfadada e sonolenta filosofia, que tanto caracterizavam Teófilo Braga.

Do homem que passara tranquilamente instalado na sua casa os dias decisivos da Revolução e que ela se referia mais tarde dizendo “que ouvira uns tiritos para o lado de Lisboa”- mas que era agora o chefe do primeiro ministério republicano- escutará ainda Machado Santos estas célebres palavras:

- O senhor é como um bom sapateiro que, depois de acabar a obra, a vai entregar ao freguês, mas tem o direito de ver o seu nome à esquina de uma rua.

Machado Santos riu-se e respondeu a Teófilo Braga:

- Olhe, senhor doutor. Eu estou a achar muita piada a tudo quanto se tem passado depois do 5 de Outubro…

Tinha 35 anos incompletos, este comissário naval de terceira classe, que nunca mais iria calar a sua voz de protesto até que as balas do Dente de Ouro a silenciem para sempre em 19 de Outubro de 1921.

Com o Governo Provisório anunciado do alto da mais solene varanda destinada às aclamações alfacinhas começara oficialmente a Republica e, simultaneamente, uma nova luta para aquele que era, afinal, o maior responsável por essa possibilidade do 5 de Outubro de 1910.

“Aquilo” que era apresentado como Governo não correspondia com o que tinha ficado assente nas reuniões preparatórias da Revolução.

Machado Santos levará o resto da vida - até ser assassinado em 19 de Outubro de 1921 – num constante e permanente estado de revolta indignado com a “traição” dos grandes caudilhos do Partido Republicano que planearam o “golpe do Governo Provisório” enquanto ele e meia dúzia de audazes se batiam na Rotunda.

As alterações de surdina ao Governo Provisório inicialmente consensado foi a estreia, a amostra e o desnudar das grandes linhas por onde se vai coser o futuro da I Republica Portuguesa.

A começar precisamente pelo pai, fundador, implantador, herói e tudo o mais que se entenda para o papel de Machado Santos em 5 de Outubro de 1910, a sua Republica morreu quase antes de ter nascido.

Heróis daquela histórica epopeia era agora algo a que pouco se ligava ou respeitava. A Machado Santos chamam-lhe herói de merda. Já não se canta com gosto aquela trova com que o povo expressava o seu ódio ao monarca espanhol apoiante das tentativas couceiristas, e que começava assim: “O rei de Espanha tem só meio bigode e a rainha não é com ele que…”

- Mas um ano da Republica - ou, antes, onze meses de revolucionários de Outubro a mais profunda das desilusões, a mais cruel decepção… Não era isto que todos sonhavam; não era isto o que todos arrastou ao combate…

Com apenas 365 dias de revolução era assim que falava o principal obreiro do 5 de Outubro de 1910. “ in António Maria de Azevedo – “ Machado Santos – o fundador da República Portuguesa: 1875 –1921”.

A Carbonária impôs-se pela sua disciplina, pela coragem dos seus dirigentes e ainda pelo espirito de renúncia que a caracterizou. Hoje, a fé amorteceu, o egoísmo prevalece sobre a pureza do ideal e o mercantilismo avassala a sociedade.
Seria impossível renová-la. As causas não cessaram, mas mudou o espirito que domina os homens. Cada um trata de correr, de beber e de folgar, sem se importar com a sorte dos seus semelhantes. Cada um trata de si, confirmando o princípio de Hobbes, homo homini lupus. A humanidade tornou-se uma vasta ménagerie de lobos ferozes. E assim, com a Revolução triunfante, a Carbonária dissolve-se em bandos e clientelas políticas, sobretudo em busca de empregos, desfazendo-se, assim, o espirito igualitário e fraterno cimentado por anos de luta.

 
At 1:50 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Não é honesto que seja omitida a origem de grande parte deste texto retirado do site As Vidas Lusófonas.

 

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